{"id":8732,"date":"2018-09-13T15:12:13","date_gmt":"2018-09-13T19:12:13","guid":{"rendered":"http:\/\/amdepol.org\/sindepo\/?p=8732"},"modified":"2018-10-02T17:32:48","modified_gmt":"2018-10-02T21:32:48","slug":"sobre-o-setembro-amarelo-e-as-relacoes-sociais-na-atualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amdepol.org\/sindepo\/2018\/09\/sobre-o-setembro-amarelo-e-as-relacoes-sociais-na-atualidade\/","title":{"rendered":"Sobre o Setembro Amarelo e as rela\u00e7\u00f5es sociais na atualidade"},"content":{"rendered":"<p>Quem foi jovem no per\u00edodo pr\u00e9 internet percebe facilmente a diferen\u00e7a entre as rela\u00e7\u00f5es sociais do passado e as de agora. Hoje a tecnologia nos permite a comunica\u00e7\u00e3o virtual com centenas, milhares de pessoas, sem que nenhuma delas esteja de fato se comunicando. O contato \u00e9 simplificado, superficial, r\u00e1pido e vol\u00e1til.<\/p>\n<p>De igual modo, percebe-se a efemeridade e a fragilidade das rela\u00e7\u00f5es que se manifestam por meio de teclas para deletar, excluir e bloquear indiv\u00edduos ocultos por codinomes ou sorrisos em selfies estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>N\u00e3o raro se observa a mera contrariedade de opini\u00e3o em discuss\u00f5es virtuais como fundamento para o descarte do interlocutor atrav\u00e9s de poucos cliques. Quem nunca viu isso nos \u00faltimos anos deve ter sido abduzido por seres de outro planeta&#8230;<\/p>\n<p>Outro aspecto diretamente relacionado \u00e0 mudan\u00e7a de comportamento se encontra claramente nas rela\u00e7\u00f5es afetivas, quando as pessoas simplesmente se afastam umas das outras, sem di\u00e1logo, justificativa, discuss\u00e3o e nem lamenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio se pode compreender que esse tipo de rompimento seja inodoro, ins\u00edpido e indolor, mas tamb\u00e9m in\u00fatil por que n\u00e3o representa necessariamente um encerramento, sen\u00e3o a substitui\u00e7\u00e3o de interesses imediatos oportunizando uma reconex\u00e3o futura. Contudo, talvez seja uma metodologia muito mais nociva por que n\u00e3o proporciona nada al\u00e9m do vazio. Nenhuma das partes envolvidas extrai qualquer ensinamento do que foi vivenciado, exceto que poderia ter pensado mais em si pr\u00f3prio para se poupar da situa\u00e7\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o, fomentando ainda mais a principal caracter\u00edstica comportamental do s\u00e9culo XXI, o individualismo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, quando o indiv\u00edduo por qualquer raz\u00e3o busca alguma conex\u00e3o (este seria o termo mais adequado \u00e0s rela\u00e7\u00f5es atuais) mais s\u00f3lida com outro, depara-se com a muralha do eucentrismo impedindo qualquer aproxima\u00e7\u00e3o que permita enxergar al\u00e9m da selfie ou do post publicados.<\/p>\n<p>Sobre o eucentrismo, na inten\u00e7\u00e3o de conferir certa leveza a assunto t\u00e3o s\u00e9rio quanto o Setembro Amarelo, chamemos jocosamente a somat\u00f3ria do nosso individualismo, ego\u00edsmo e egocentrismo de EUCENTRISMO (se \u00e9 que esse termo j\u00e1 n\u00e3o foi cunhado por pensador mais qualificado).<\/p>\n<p>Pondere-se que para a maioria de n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 o homem enquanto indiv\u00edduo que importa, mas somente o eu enquanto centro do meu pr\u00f3prio universo que interessa a mim mesmo, sem qualquer pleonasmo na constru\u00e7\u00e3o da frase.<\/p>\n<p>Talvez por essa natureza superficial e fr\u00e1gil das rela\u00e7\u00f5es pessoais estejamos vivendo a era do politicamente correto malconcebido, quando qualquer palavra pode ser compreendida como ofensa porque os seres humanos se tornam fracos e intolerantes e para se protegerem de suas pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es estabelecem conex\u00f5es sociais superficiais falsas e f\u00fateis, como fossem rela\u00e7\u00f5es de consumo, como ensinou Zygmunt Bauman.<\/p>\n<p>Sob o prisma da modernidade l\u00edquida de Bauman questiona-se o quanto a fragilidade e fluidez das rela\u00e7\u00f5es interpessoais do mundo atual t\u00eam afetado ou contribu\u00eddo para o aumento do comportamento depressivo e com eles os suic\u00eddios em face do isolamento e da solid\u00e3o que o eucentrismo acarreta.<\/p>\n<p>Em dois anos lidando com ocorr\u00eancias de suic\u00eddio na Delegacia Especializada de Prote\u00e7\u00e3o a Pessoa percebemos que as v\u00edtimas comumente apresentam comportamento depressivo e por vezes faziam tratamento contra Depress\u00e3o. Entretanto em boa parte dos casos as fam\u00edlias jamais cogitaram a possibilidade da auto-elimina\u00e7\u00e3o em seus lares.<\/p>\n<p>Isso nos leva a pensar sobre a necessidade de abordar o tema ampla e francamente, uma vez que essas situa\u00e7\u00f5es se instalam em todas as classes sociais, faixas et\u00e1rias, g\u00eaneros e ra\u00e7as e t\u00eam se tornado cada vez mais freq\u00fcentes, assim como a Depress\u00e3o que j\u00e1 \u00e9 considerada endemia.<\/p>\n<p>A OMS divulgou ano passado n\u00fameros que colocam o Brasil como campe\u00e3o de casos de depress\u00e3o na Am\u00e9rica Latina apontando que 5,8% da popula\u00e7\u00e3o nacional seja afetada pela doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Os estudos publicados sobre suic\u00eddio no Brasil em geral apontam o comportamento depressivo como caracter\u00edstica da v\u00edtima suicida e tamb\u00e9m colocam a habilidade nas rela\u00e7\u00f5es sociais como um dos fatores de prote\u00e7\u00e3o ao comportamento suicida, logo, acreditamos seja ineg\u00e1vel a rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por conseguinte, pensemos como um efeito \u201cgeladeira\u201d nas palavras da filosofia popular do cantor Wesley Safad\u00e3o, atua numa pessoa que j\u00e1 apresenta um quadro depressivo com emprego de medicamentos&#8230; (sobre o efeito geladeira recomendo a leitura das letras das m\u00fasicas do artista e de outros sucessos populares).<\/p>\n<p>De que maneira um adolescente que n\u00e3o se encaixa nos padr\u00f5es est\u00e9ticos e comportamentais das m\u00eddias sociais reage a um bullying virtual que n\u00e3o tem efetiva solu\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o conte\u00fado postado em rede social foge ao controle das controladoras dos sitios. Ou seja, meu caro leitor, um v\u00eddeo postado por meio de certos aplicativos jamais ser\u00e1 exclu\u00eddo da rede mundial de computadores e o indiv\u00edduo que estiver incomodado com isso ter\u00e1 que conviver eternamente com esse inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio lidar com as frustra\u00e7\u00f5es do cotidiano para que se possa enfrentar a realidade por detr\u00e1s das redes sociais e das conex\u00f5es (rela\u00e7\u00f5es) superficiais e fluidas.<\/p>\n<p>Os humanos da atualidade v\u00eam se protegendo uns dos outros visando escapar das contrariedades e se fecham em si mesmos. Contudo, t\u00eam deixado de experimentar da vida o que ela melhor pode oferecer: o sentir, e quando algo foge ao controle (sempre vai fugir) o efeito \u00e9 devastador conduzindo a comportamentos depressivos por causas que antes eram vivenciadas com naturalidade pelos nossos antepassados pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Sem qualquer pretens\u00e3o terap\u00eautica, apenas como humano vivente nesta era euc\u00eantrica, conclamamos o leitor a se emocionar e a se vulnerabilizar em rela\u00e7\u00f5es reais buscando resgatar o respeito, a compaix\u00e3o, o altru\u00edsmo e a lealdade que parecem ter sido esquecidas no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Lembramos que os efeitos desse modelo l\u00edquido de intera\u00e7\u00e3o social est\u00e1 presente em nosso cotidiano, lares, filhos e talvez sem perceber estejamos fomentando e reproduzindo a fluidez das rela\u00e7\u00f5es que pode levar a trag\u00e9dias que afetar\u00e3o nosso mundo euc\u00eantrico. Ser\u00e1 que nossas rela\u00e7\u00f5es familiares n\u00e3o t\u00eam sido igualmente l\u00edquidas?<\/p>\n<p>Aproveitemos o m\u00eas escolhido pela OMS para conscientiza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia e da proximidade do suic\u00eddio e do que podemos fazer para nos protegermos dele e da necessidade ajuda especializada quando presentes alguns dos sintomas de depress\u00e3o ou mesmo do comportamento depressivo.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica<\/span><\/strong><\/p>\n<p>BAUMAN, Zygmunt. Modernidade l\u00edquida. Jorge Zahar Ed. 2001.<\/p>\n<p>BAUMAN, Zygmunt. Amor l\u00edquido: sobre a fragilidade dos la\u00e7os humanos. Jorge Zahar Ed. 2004.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\"><a href=\"https:\/\/amdepol.org\/sindepo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Delegada-Alana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8733 alignleft\" src=\"https:\/\/amdepol.org\/sindepo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Delegada-Alana.jpg\" alt=\"\" width=\"185\" height=\"277\" srcset=\"https:\/\/amdepol.org\/sindepo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Delegada-Alana.jpg 994w, https:\/\/amdepol.org\/sindepo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Delegada-Alana-200x300.jpg 200w, https:\/\/amdepol.org\/sindepo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Delegada-Alana-768x1150.jpg 768w, https:\/\/amdepol.org\/sindepo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Delegada-Alana-684x1024.jpg 684w, https:\/\/amdepol.org\/sindepo\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Delegada-Alana-251x375.jpg 251w\" sizes=\"(max-width: 185px) 100vw, 185px\" \/><\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Sobre a autora:<\/span><\/strong> A Dra. Alana Derlene Sousa Cardoso \u00e9\u00a0Delegada de Pol\u00edcia Adjunta da Delegacia Especializada de Homic\u00eddios e Prote\u00e7\u00e3o a Pessoa (DHPP).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem foi jovem no per\u00edodo pr\u00e9 internet percebe facilmente a diferen\u00e7a entre as rela\u00e7\u00f5es sociais do passado e as de agora. Hoje a tecnologia nos permite a comunica\u00e7\u00e3o virtual com centenas, milhares de pessoas, sem que nenhuma delas esteja de fato se comunicando. O contato \u00e9 simplificado, superficial, r\u00e1pido e vol\u00e1til. 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